quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

No Carro(2)

Continuação do conto: No Carro

Ele não sabia quanto tempo ele ficou naquele lugar, ele só sabia que chorou como nunca tinha chorado. Ele usava uma expressão quando se chorava muito: "Chorei até esquecer o porquê estava chorando".  E lá dentro do porta-malas do carro ele viu como era boba essa expressão ou como ele tinha chorado por coisas bobas, mas a quase morte não era um motivo bobo para chorar. Os olhos já estavam acostumados com o escuro ele já enxergava as coisas dentro do porta-malas, ele reconhecia até o macaco ou coisa parecida.

Mas ele ficava parado, ele queria gritar, ele queria chutar o porta-malas. Mas o medo ainda o paralisava. E se eles voltassem? Ele de repente ficou pensando se visse o magrelo em uma situação normal nem teria reparado nele. E se o magrelo arrependesse e voltasse para acabar o serviço?

A sensação que ele tinha que eles não eram experientes, de repente ele pensou que talvez eles estivessem em uma prova de iniciação como ele lera nos livros policiais que ele gostava de ler de uns anos para cá.

O silencio que chegou a doer foi dando lugar ao barulho de bicho e o som era abafado, aos poucos o porta mala ia ficando quente. Ele de repente começou a pensar o porquê ele não conseguia chutar, o porquê ele não conseguia gritar. Parecia bobo, mas ele lembrou um papo de autoajuda que as pessoas gostavam de falar de um tal de elefante e da corda que o mantém preso desde filhote e quando o elefante cresce a corda não faz muito sentido, mas o elefante ainda fica lá.

Ele sempre achou que isso era mentira, porque mais cedo ou mais tarde o elefante iria se soltar em um movimento. O suor já começava a molhar a roupa, o porta-malas já estava inferno. ele viu que teria que fazer alguma coisa...

Começou a chutar o porta-malas... Chutava como toda a força que tinha, mas o barulho não era muito empolgante. O primeiro grito veio abafado... Um urro mesmo. Nada de socorro! Um urro meio besta, meio infantil. Na esperança de alguém o encontrar.

Ninguém o encontrou.


.Vida de Merda.

6 comentários:

Madi Muller disse...

Nossa,Cristiano,até eu fiquei sem ar,só de ler esse teu post.Forte.

Pérola disse...

E a melhor expectativa é não a ter.
Dizem que somos nós que fazemos a nossa vida.
Para mim, não é assim.
Há tantos condicionantes que não dominamos.

Beijos.

P.S. Uma bela leitura.

Dorli disse...

Oi Cristiano
Seu comentário me comoveu, fiquei imensamente feliz em lhe proporcionar esses lindos sorrisos
Olhe para trás, veja a pobreza de espírito que têm muitas pessoas que até da vontade de chorar
Muito obrigada pela visita
Lua Singular

nos"entas!!!! ( e feliz) disse...

Deve ser aflitivo mesmo!
Não sei se o estar preso na mala do carro é "metáfora"....
mas a aflição é notória....

logo eu, que sou meia claustrofóbica ;)
bj

nos"entas!!!! ( e feliz) disse...

Deve ser aflitivo mesmo!
Não sei se o estar preso na mala do carro é "metáfora"....
mas a aflição é notória....

logo eu, que sou meia claustrofóbica ;)
bj

José Carlos Sant Anna disse...

Também estive por aqui "curtindo" as suas postagens. Os textos são bons porque você é um bom ourives. Voltarei outras vezes. Aproveito para agradecer-lhe sua visita.
Grande abraço,